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JAPÃO- MERCADO DE APOSTA

30.04.2010
JAPÃO- MERCADO DE APOSTA
Mercado com enormes potencialidades para a oferta portuguesa, o Japão ocupa, porém, um lugar modesto nas pautas do comércio externo português, pese embora o sólido relacionamento histórico e institucional existente entre as duas nações. A apetência dos consumidores japoneses por produtos com uma boa relação qualidade/preço, oferece actualmente boas oportunidades para as empresas nacionais que pretendam apostar no mercado japonês.

Por José Joaquim Fernandes, director do Escritório da AICEP no Japão

Fonte: PortugalGlobal Abril 2010
O relacionamento entre Portugal e o Japão existe de longa data. Os laços de carácter histórico e cultural são antigos e profundos. Na verdade, os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar ao Japão em meados do século XVI, tendo exercido durante os 90 anos que se seguiram uma influência profunda na sociedade japonesa, que ainda hoje perdura. Por isso, todos os japoneses sabem onde se localiza Portugal e quem são os portugueses, assim como a grande influência que tiveram no primeiro grande movimento de ocidentalização que o país do sol nascente sofreu.

Este aspecto é, sem dúvida, uma importante vantagem competitiva sempre que se apresenta Portugal, enquanto país moderno e agressivo comercialmente, aos japoneses dos dias de hoje.Perante o enorme potencial que o mercado japonês incorpora, os exportadores portugueses têm ainda uma gama vasta e diversificada de oportunidades a descobrir e, consequentemente, a aproveitar. Em boa verdade, falamos da segunda mais poderosa economia mundial, com um dos produtos per capita mais elevados do mundo, com 127 milhões de habitantes e com consumidores sofisticados, exigentes, conscientes em termos de marcas, com preocupações ambientais, viajados, cosmopolitas, com a mais alta esperança de vida do mundo e com grande apetência por produtos estrangeiros com um bom trinómio qualidade/design/preço.

Acima de tudo, falamos de consumidores com hábitos de consumo a que correspondem um dos mais elevados poderes aquisitivos do mundo desenvolvido.Simultaneamente, o Japão possui uma indústria que se encontra nos primeiros lugares mundiais em múltiplos sectores, liderando muitos deles, com uma aposta governamental, clara e inequívoca a longo prazo, em sectores que conduzam a um crescimento sustentado, assente numa procura sólida, doméstica e global, alicerçada numa nova ordem económica mundial, que garanta uma sociedade com reduzidas emissões de CO2 e que assegure uma vida longa e sadia à população.

Citam-se alguns exemplos de sectores com pleno potencial de crescimento: energias limpas e renováveis, veículos não poluentes, edifícios e equipamentos de reduzido consumo energético e longos ciclos de vida, índices muito elevados de reciclagem e reutilização de recursos, saúde e lazer.Apesar disto, o Japão ocupa ainda um lugar relativamente modesto na lista dos principais clientes de Portugal. Contudo, como já referido, o potencial é muito grande e necessita de ser aproveitado pela comunidade exportadora portuguesa. E, não menos importante, o mercado japonês é, pela sua exigência, um excelente cartão de visita para qualquer empresa com actividade internacional.Pode até falar-se em crise económica.

Mas, actualmente, quem não está em crise? Assim, é preciso interiorizar que a “crise” económica japonesa actual é uma “crise” de ricos e, deste modo, revela-se uma verdadeira oportunidade para a oferta portuguesa. Porquê? Porque o consumidor japonês reage à crise tornando-se mais cauteloso e dando por isso prioridade, já não predominantemente a produtos topo de gama, mas a produtos com a melhor combinação possível de qualidade/preço/design, o que é uma enorme vantagem competitiva para a comunidade exportadora portuguesa.

Oferta portuguesa com boa imagem no Japão.A procura japonesa, para felicidade de todos, coincide grandemente com a oferta portuguesa, que é reconhecida e percebida no Japão como produtora de bens e tecnologias “Made in EU”, consequentemente com muito boa imagem. E acima de tudo, a oferta nacional é vista como fortemente concorrencial em mercados também eles exigentes e sofisticados.

De facto, sectores como as energias renováveis, o eco negócio, o ambiente, as TIC, a saúde e o lazer, a moda, os têxteis-lar, os materiais de construção, as cerâmicas, os vidros e cristais, os produtos alimentares, os vinhos, o mobiliário, são excelentes exemplos de sectores onde as empresas portuguesas podem ter uma palavra a dizer no mercado japonês. Para isso, é preciso apenas uma coisa, simples e objectiva, que é tentar. Tentar de forma séria, empenhada e continuada, porque os resultados aparecem.Por último, tão ou mais importante do que o volume de negócios que possa vir a ser realizado, resta o facto, de per si crucial, de que o Japão, em termos de imagem e criação de novas tendências e modas, é, de facto, uma cultura em permanente observação por parte dos mercados asiáticos vizinhos, como a China e a Coreia do Sul. Na realidade, muitas das grandes praças económico-financeiras desta região do globo, como por exemplo Xangai, Pequim, Hong Kong, Seul, Singapura e Taipé, observam atentamente e seguem as grandes tendências e modas que de Tóquio emanam. Este é um real factor multiplicador, que, não implicando custos, induz vastas oportunidades comerciais.Não há mercados fáceis nem mercados difíceis. Há, outrossim, mercados com características específicas e peculiares, que é preciso nunca perder de vista quando nos preparamos para os abordar. Neste particular, o mercado japonês necessita de cuidado especial no que aos aspectos abaixo referidos diz respeito.A

ntes de mais nada, a comunicação no Japão é um problema delicado, uma vez que, na sua maioria esmagadora, os japoneses não falam inglês com fluência suficiente. Como resultado do método pedagógico, é fácil encontrar japoneses que lêem e escrevem bastante bem inglês, mas quase não conseguem comunicar verbalmente. Assim, o recurso a um intérprete, pelo menos nos contactos iniciais, é de todo obrigatório.

A sociedade japonesa funciona de forma harmoniosa e em grupo. Por isso, o conflito deve ser evitado a todo o custo, o diálogo deve ser contínuo e as relações pessoais, que são elaboradas e complexas, devem ser mantidas e cultivadas com cuidado e carinho, para que se solidifiquem e se perpetuem no tempo.Por outro lado, o mercado japonês é de reacção, ainda que segura, lenta.

Isto porque aqui se pratica uma cultura empresarial assente em três pressupostos de base: planeamento detalhado, planificação rigorosa e decisão de grupo, que é conseguida após lenta e cuidada análise de toda a informação, que é cruzada por todas as formas possíveis ao alcance dos decisores. Sem sombra para qualquer tipo de dúvida, trata-se de uma cultura onde o improviso é de todo desconhecido. Por isso, é preciso ser paciente e perseverante.

No Japão nada se faz depressa porque tudo se faz bem feito. Mas este longo processo tem uma tremenda vantagem. Uma vez conseguido um parceiro comercial, ele será fiel, dedicado ao longo do tempo e, acima de tudo, respeitador dos compromissos assumidos.A terminar, e num mercado tão apetecível e liberalizado como o de que aqui se fala, deve esperar-se uma agressiva concorrência por parte dos exportadores e agentes económicos dos países que aqui competem. No nosso caso, e em particular, países que mais directamente competem com Portugal, como por exemplo a Espanha, a Grécia, a Itália, o Chile, a Áustria, a Hungria, a Eslováquia e a Republica Checa, mantêm no Japão uma presença constante e muitíssimo aguerrida.

Entrevista gentilmente cedida pela AICEP

Fonte: PortugalGlobal Abril 2010

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